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2009-09-12
Caminhos da BR-101 // Fazendo turismo estrada afora

Caminhos da BR-101 // Fazendo turismo estrada afora


Para o turismo, a duplicação da BR-101 é uma mão na roda, com o perdão do trocadilho. O viajante poderá sair cedinho do Recife e curtir o sol do verão na Praia de Ponta Negra, em Natal.

Praia da Pipa é uma das mais visitadas do Rio Grande do Norte.Fotos: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
Depois de almoçar, tomar uma água de coco, descansar um pouco, bastará tomar o caminho de volta, fazendo uma parada básica para acompanhar o pôr do sol ao som do Bolero de Ravel na Praia do Jacaré, em Cabedelo (PB). Os desencanados poderão até arriscar um passeio ao natural por Tambaba. Já os que vêm de longe poderão voar até uma das capitais e fazer o restante do percurso de ônibus ou carro. O crescimento do número de visitantes nos estados "duplicados" vai aumentar, certamente. Até o presidente Lula andou falando, mais de uma vez, que "o sonho da vida dele é sair de carro fazendo turismo pelo Nordeste". O impacto das obras da rodovia no turismo na região é o assunto que fecha a série Caminhos da BR-101.


Passeio de jangada é disputado por turistas brasileiros e estrangeiros na Praia de Porto de Galinhas. Foto: Alexandre Gondim/DP/D. A Press - 18/3/09
O local de trabalho de Daniel Batista da Silva, 33 anos, parece saído de um filme de ficção científica. A areia é bem vermelha. Igual a Marte. Mas é o Chapadão da Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte. É lá que Daniel ganha a vida vendendo picolés para os turistas que vão de buggy curtir a vista de tirar o fôlego. Ele é de Natal e antes trabalhava na Praia de Ponta Negra. Agora passa a semana na casa do irmão, em Tibau do Sul. Gasta uma hora e meia na viagem de ônibus. Mal pode esperar pelo término da duplicação da BR-101. "Vai ficar bem mais rápido para chegar". Não só para Daniel. O próprio turista vai se beneficiar do novo formato da rodovia.

A publicitária Diana Maria Trentin, o marido, Marlos, e o casal de amigos Nestor Gollo e Elenice Battistela - todos de Erechim (RS) - vieram conhecer a hospitalidade nordestina. Hospedados no Recife, aproveitaram para esticar a visita até João Pessoa. "A saída do Recife ainda está complicada. Mas, de resto, a obra vai deixar a estrada muito boa", afirma Diana. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Pernambuco (ABIH-PE), José Otávio Meira Lins, lembra que a duplicação é um anseio antigo do setor. "A gente enxerga a possibilidade de se fazer um marketing conjunto para os três estados".


Beleza do pôr do sol na Praia do Jacaré é um dos cartões postais do turismo da cidade de João Pessoa. Foto: Helder Tavares/DP/D.A Press - 20/5/09
Na opinião de Meira Lins, como existe uma grande dificuldade na malha aérea da região, o trade sai ganhando se explorar a malha rodoviária. Para ele, a obra de duplicação do Corredor Nordeste é tão importante para o setor quanto a reforma dos aeroportos. O secretário de Turismo de Pernambuco, Sílvio Costa Filho, diz que o trabalho integrado começou. O roteiro da Civilização do Açúcar, por exemplo, está pronto e foi apresentado no Salão do Turismo, em São Paulo. Abrange cidades "açucareiras" de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

Tanto Meira Lins quanto Costa Filho afirmam que pouco mais da metade do fluxo de turistas de Pernambuco é do próprio Nordeste, especialmente dos estados vizinhos. Não é diferente noRio Grande do Norte e na Paraíba. Ano passado, uma pesquisa potiguar que avaliou a demanda turística mostrou (para surpresa até do governo) que o pernambucano era o visitante mais assíduo do estado, passando até o número de paulistas. O que não quer dizer que gente de fora não apareça por lá. Eles aparecem. Daqui do Brasil e do estrangeiro. Ficam hospedados nos hotéis de Natal ou então vão para Pipa.

A mesma pesquisa da demanda turística revelou que o brasileiro gastava, em média, US$ 59,50 por dia, contra US$ 115,40 do estrangeiro. O paulista Rodrigo Haritov, 35, está acostumado ao poder econômico dos gringos. Condutor de buggy (sim, o nome da profissão é essa), ele mora em Pipa há 16 anos. "A duplicação da rodovia vai aumentar a segurança e diminuir o tempo das viagens", diz Rodrigo, enquanto faz uma pausa no passeio de um dia inteiro com um casal norte-americano e a filha deles. Em média, ele fatura por mês R$ 2,5 mil. No verão, os rendimentos podem chegar a R$ 4 mil. Nada mal para quem tem um filho para sustentar.

Quem vem de fora, lembra Rodrigo, quer ver a casa arrumada. Na Paraíba, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) está avaliando a situação dos terminais de passageiros do estado. O objetivo é reformar o da capital. A intenção pode ser das melhores, mas a ideia vem sendo condenada por representantes do trade local, entre eles o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens da Paraíba (Abav-PB), Luiz Félix de Lucena. Para ele, um novo terminal deveria ser construído às margens da BR-101. Até para tornar mais fácil a vida de quem resolver se hospedar na cidade para acompanhar os jogos da Copa de 2014 no Recife e em Natal. Faz todo sentido.
Há muita coisa para melhorar



A BR-101 está sendo duplicada e a expectativa de crescimento no turismo é grande. Mas não dá para ficar parado. Quem tem negócio nas cidades litorâneas sabe que é preciso investir em estradas de acesso, saneamento e infraestrutura.

Daniel Fernández cobra a realização de obras prometidas pelo governo. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
"Há dois anos, o Rio Grande do Norte perdeu um voo charter dos Estados Unidos porque as estradas estavam ruins", lembra o condutor de buggy Rodrigo Haritov. O empresário Daniel Arán Fernández, dono da imobiliária Sinergy, em Pipa, cobra a execução de obras na praia.

"Temos falado com representantes do governo e todo mundo tem a visão do que é preciso fazer. Mas demora muito. Temos o projeto do anel viário de Pipa, que tem oito, dez anos, e só está saindo agora. Tem uma placa informando que em 240 dias estará tudo pronto. Mas a placa já tem um ano e meio", lembra o uruguaio Fernández, morador de Pipa há oito anos. Falta também levar adiante a Estrada Parque, que começa em Goianinha e terá 22 quilômetros, pista dupla. Está orçada em R$ 50 milhões.

Nas últimas duas semanas, a reportagem do Diario tentou insistentemente entrar em contato (por telefone e e-mail) com o secretário de Turismo do Rio Grande do Norte, Fernando Fernandes, mas não obteve resposta. "Um dos maiores entraves em Pipa é a falta de planejamento viário. Com pouca quantidade de carros já se cria o caos no trânsito", afirma Daniel Arán Fernández. Ele acredita que, se o governo tivesse acompanhado o investimento privado nos últimos seis anos, a situação seria outra.

Em Pernambuco também há o que fazer, mas o secretário estadual de Turismo, Sílvio Costa Filho, apressa-se em enumerar as ações do governo. Serão investidos R$ 7,5 milhões na sinalização turística dos 187 quilômetros do litoral. O dinheiro é do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur II). Serão instaladas 398 placas, 129 pórticos, 37 semipórticos e 57 placas interpretativas de atrativos turísticos. "A sinalização já estará completa no próximo verão", garante o secretário.

No Litoral Norte, foram feitos acessos para as praias de Ponta de Pedras e Catuama, em Goiana. "No Sul, estão sendo investidos R$ 80 milhões para melhorar o acesso entre a BR e Serrambi. Também estamos fazendo estradas e esgotamento sanitário em Tamandaré com dinheiro do Prodetur", diz Costa Filho. Ele reconhece que muito mais precisa ser feito, principalmente por conta da Copa do Mundo. "É muito importante que o governo federal também faça um planejamento para a requalificação dos destinos".
Fonte: Diário de Pernambuco