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2009-09-10
Caminhos da BR-101 // Nem todo mundo está feliz


Uma obra do porte da duplicação do Corredor Nordeste da BR-101, orçada em R$ 2 bilhões, não pode mesmo gerar opiniões unânimes. E não gerou.

As vendas de Rosinaldo foram reduzidas em 30% com a duplicação da rodovia em Mata Redonda (PB). Fotos: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
Em meio às inúmeras declarações favoráveis, surgem vozes de descontentamento. De vendedores de beira de estrada a empresários que assistem às máquinas passarem por cima de seus negócios. O quinto dia da série Caminhos da BR-101 traz as histórias de Rosinaldo, Manoel e Jaziel e de como as obras transformaram a vida deles.

Lá vem um carro na estrada. Passa correndo. Lá vem outro. Passa correndo também. Agora são caminhões. Outros carros. Todos velozes, aproveitando o asfalto novo da rodovia. Os motoristas devem ter visto as laranjas penduradas. As melancias, mangas e abacaxis organizados estrategicamente no tabuleiro. Mas ninguém para. Nem para perguntar o preço. Estamos no meio da manhã de uma sexta-feira e o restante do dia não deve ser muito diferente para Rosinaldo Oliveira da Silva, 22 anos.
Vendedor de frutas em Mata Redonda, distrito do município paraibano de Alhandra, Rosinaldo está insatisfeito com a duplicação da BR-101. Ele reconhece o progresso que a região alcança com a obra. Mas diz que a vida dele e da família mudou para pior. "Antes a gente podia vender dos dois lados da pista. Agora só pode ficar em um (entre João Pessoa e o Recife). Os carros andam rápido demais". Rosinaldo começou a vender frutas na adolescência. Agora calcula uma queda de, nomínimo, 30% no movimento.
Uns dois quilômetros adiante, também em Mata Redonda, Manoel Barbosa confirma a drástica queda nas vendas. Ele toma conta de uma barraca que, além das frutas, oferece ovos de galinha de capoeira. "Tem dia que a gente não vende nadinha", lamenta o senhor de 63 anos. Para tentar sustentar a família, na cidade vizinha de Caaporã, Manoel planta macaxeira. Como Rosinaldo, também reclama da velocidade dos carros. O que ficou bom para os motoristas ficou ruim para ele.


Jaziel reclama que o restaurante vai ficar sem estacionamento quando as obras de duplicação avançarem
Os vendedores de beira da estrada não são os únicos a se queixar das mudanças. No caminho da rodovia ainda em obras, é possível encontrar empresários descontentes. "Vocês estão fazendo uma matéria sobre a BR? Então coloquem que vamos perder todo o nosso estacionamento", diz Jaziel Maurício, dono do restaurante Alfredão Pituzada, no município de Escada, Mata Sul pernambucana. O restaurante funciona no local há 18 anos. Serve cerca de 80 mesas por dia. A média é anual. No verão o número é maior.

Jaziel diz que perguntou aos representantes do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) por que a duplicação não poderia ser feita "do lado de lá" da pista, onde "só tem canavial". Recebeu como resposta o tradicional "infelizmente nada pode ser feito". Agora não sabe como fará para acomodar os ônibus de turismo que o restaurante recebe. Vizinho de Jaziel, Sérgio Pimenta está fazendo obras em seu motel Açaí. "Terei que colocar a entrada para os fundos. Nem sei quanto vou gastar".

No Rio Grande do Norte, empresários e moradores de Goianinha brigam na Justiça por conta das desapropriações na entrada da cidade. O gerente geral de contrato da obra no lote 2, Gilberto Ruggiero, diz que os trabalhos estão atrasados. Enquanto os trabalhadores revolvem a terra e colocam cimento, o pedreiro Wilson Souza, 62, observa tudo atentamente. Foi contratado pelo dono de um terreno para garantir que as máquinas não passem por lá enquanto a situação da desapropriação não for resolvida.

O superintendente do Dnit potiguar, Fernando Rocha, reconhece que a parte das desapropriações é complicada. Ainda faltam pelo menos 20 no lote 2, que passa por Goianinha. "Imagine você chegar para uma senhora de 80 anos e dizer que ela vai ter que sair dali. Fico imaginando minha mãe". Independentemente do lado afetivo, Rocha afirma que a estrada tem que passar. "Não tem jeito. Por isso tem que ser tudo bem planejado. Mas não dá para evitar os traumas".
A incrível história do contorno que deu um nó

Naquele 25 de julho de 1980, o presidente João Figueiredo inaugurou na capital pernambucana a obra do Contorno do Recife da BR-101. Descerrou uma placa comemorativa em um monumento de Francisco Brennand, ouviu a Orquestra Sinfônica do Recife tocar ciranda e maracatu. Com 65 quilômetros de pistas principais, viadutos e pontes, a obra prometia reduzir a distância percorrida pelos caminhoneiros com destino ao Sul do país, além de gerar uma economia com o gasto com óleo diesel. Quase 30 anos depois, o crescimento das cidades transformou o contorno em dor de cabeça para o Dnit.

A manutenção é insuficiente para a quantidade de carros que trafegam por lá. A média é de 35 mil veículos por dia. Mas em alguns trechos, como nas proximidades da Universidade Federal de Pernambuco, rodam até 80 mil veículos. "Por isso foi lançado o edital para a requalificação de 41 quilômetros, entre Igarassu e Prazeres", diz o superintendente em exercício do Dnit no estado, Divaldo de Arruda Câmara. A obra - transformada em lote especialda BR-101 - está orçada em R$ 140 milhões. Prevê a restauração da pista, melhoria da iluminação, implantação de defensas metálicas, construção de viadutos.
Mês passado, o Grande Recife Consórcio de Transporte, empresa responsável pelo gerenciamento do transporte de ônibus na Região Metropolitana do Recife, solicitou ao Dnit um estudo para atender melhor a demanda do trânsito. "A BR-101 faz parte do Sistema Estrutural Integrado (SEI). É nossa quarta perimetral, um corredor importante no sistema de transporte", diz Regilma Souza, diretora de Planejamento da empresa. Segundo ela, já circulam pelo trecho 143 ônibus de 18 linhas, que realizam 1.684 viagens por dia, transportando 68 mil passageiros.

Se nada for feito, em 2012 a rodovia estará totalmente saturada, muito mais do que hoje. Serão 90 mil passageiros por dia. E ninguém estava contando com a Copa do Mundo de 2014. A Cidade da Copa, planejada para ser construída no município de São Lourenço da Mata, também vai colocar mais lenha nesse contorno. "Solicitamos ao governo federal uma série de intervenções visando à Copa", conta Regilma Souza. Para ela, não dá para ignorar o transporte público no Contorno do Recife. Quem passa pela estrada sabe que ela tem razão.
Fonte: Diario de Pernambuco