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2009-09-09
Caminhos da BR-101 // Encurtando distâncias

Caminhos da BR-101 // Encurtando distâncias


 

A meta de qualquer empresa é levar seu produto até o cliente na quantidade determinada, no tempo pré-estabelecido, com o mínimo custo. Muitas vezes, as estradas não ajudam.

Fotos: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
Situação que chega a ser irônica para um país com mais de 60% das cargas concentradas nas rodovias. É daí que vem a importância da duplicação da BR-101 entre Natal (RN) e Palmares (PE). O corredor é usado para escoar a produção local e receber o que vem de fora. A quarta reportagem da série Caminhos da BR-101 vai tratar do impacto da obra no transporte e na logística.

"Vocês têm umas estradas bem machucadas por lá. O caminhão balança um bocado". De maneira simples, porém incisiva, a costureira paraibana Ana da Silva, 37 anos, resume o estado de algumas rodovias pernambucanas. Em especial os 41,4 quilômetros da BR-101 entre a divisa com a Paraíba e a cidade de Igarassu. O trecho compõe o lote 6 das obras de duplicação e requalificação do Corredor Nordeste. Ana costuma viajar com o marido, Edmilson Corrêa da Silva, 29. Caminhoneiro desde 1999, Edmilson acredita que a duplicação ficará muito boa depois de concluída. Por enquanto, acha ruim os desvios na pista. "São muito apertados".

O aperto não é sentido apenas por quem usa a rodovia. Estrada ruim é sinônimo de custo mais alto para as empresas. "Hoje, o transporte é feito em cima do tempo. Quanto mais o veículo consegue rodar, melhor para o negócio. É como avião", diz Manoel Leite, diretor de Operações do Rapidão Cometa. O grupo conta com uma frota de mais de2,5 mil veículos circulando pelo Brasil, de Norte a Sul. São mais de 7 milhões de entregas realizadas por ano. Segundo Leite, cerca de 20% da movimentação das cargas da empresa passam pelas fronteiras dos estados que abrigam as obras de duplicação e restauração da BR-101 no Nordeste (Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte).


As obras de duplicação e recuperação da BR-101 devem ser concluídas no segundo semestre de 2010. Do total de operações do Rapidão Cometa, cerca de 20% passam pelas fronteiras de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.
"Sem dúvida, teremos uma redução do tempo das viagens. Representa um ganho muito grande", reconhece Manoel Leite. Um levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostra que as rodovias em mau estado elevam em 40%, em média, o custo operacional dos veículos. A frota de caminhões rodando pelo país chega perto dos 2 milhões. O diretor de Operações do Rapidão Cometa destaca também a redução do custo com a manutenção dos equipamentos e, claro, a expectativa de diminuição do número de acidentes na rodovia. "Essa BR precisava muito disso, é muito movimentada", afirma Leite.

Outro detalhe (este muito importante para os consumidores) é que a queda nos custos das empresas acaba refletindo (ao menos em tese) no preço final dos produtos. A empresa de telefonia Nextel conta com a BR-101 para continuar o processo de expansão dos negócios do Nordeste. A companhia investiu US$ 100 milhões (pouco mais de R$ 180 milhões pelo câmbio atual) para chegar este ano às bases de Salvador, Recife e Fortaleza. "Tivemos um crescimento de 38% em número de assinantes no segundo trimestre de 2009. Esse crescimento se deve, em boa parte, à chegada da empresa ao Nordeste", destaca o gerente de Vendas para a região, Maurício Di Roberto.

Crescimento é uma palavra repetida também por Gilberto Neri. Gerente do posto Pichilau localizado no distrito industrial de João Pessoa, ele conta que o número de veículos que fazem pit stop por lá já está entre 20% e 25% maior, mesmo com a duplicação ainda incompleta. O caminhoneiro Edmilson, que acha os desvios da rodovia "apertados", é um dos fregueses. O posto conta com um estacionamento para até 500 caminhões. O gerente chama atenção também para o aumento do número de carros de passeio, especialmente durante os feriadões. "Quando estiver tudo pronto, a gente vai bombar", comemora Neri.

Você sabia...

- A primeira rodovia pavimentada do Brasil, hoje conhecida como Washington Luís, foi inaugurada em 1928, ligando a cidade do Rio de Janeiro a Petrópolis

- No Brasil, a matriz de transporte é predominantemente rodoviária. Esta modalidade corresponde a 96,2% da matriz de transporte de passageiros e a 61,8% da matriz de transporte de cargas

- Há pouco mais de 73 mil quilômetros de estradas federais no país, sendo 58,1 mil pavimentadas e 14,8 mil não pavimentadas

- Em abril de 2008, a frota de caminhões rodando pelas estradas brasileiras era de 1,85 milhão

Fonte: CNT


Vai um camarão ao alho e óleo?



O Rio Grande do Norte é o maior produtor de camarão do país. Ano passado foram quase 30 mil toneladas, a maior parte consumida aqui mesmo no Brasil. Mas o crustáceo não sai sozinho dos viveiros para se transformar em pratos apetitosos na mesa do brasileiro. Precisa pegar a estrada antes. A BR-101 tem papel fundamental nesse vai- e-vem, confirma Enox Maia, presidente da Associação Norte-rio-grandense de Criação de Camarão e vice-presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Camarão.

A produção do Rio Grande do Norte está concentrada principalmente nos municípios de Canguaretama, Pendências, Maxaranguape, São Gonçalo do Amarante e Mossoró. Pelo menos 30 mil empregos, entre diretos e indiretos, são gerados pela carcinicultura. De acordo com Maia, 60% dos camarões criados no estado e consumidos no mercado interno são transportados de caminhão pela rodovia que nasce na cidade potiguar de Touros e segue por 4,5 mil quilômetros até São José do Norte, no Rio Grande do Sul.

"A BR-101 é muito importante para o escoamento da produção. Nosso camarão vai para o Rio de Janeiro, para São Paulo, para a Bahia", lembra o empresário. Distrito Federal e Pernambuco também recebem parte da produção do estado. Com pista simples e má conservação, os caminhões são obrigados a trafegar vagarosamente, podendo ser assaltados (isso já aconteceu com produtores locais) ou ver a carga se estragar.

"Um caminhão que sai carregado de camarão in natura para uma unidade de processamento pode sofrer com o estrangulamento do trânsito e chegar ao destino com o produto alterado. A relação tempo e temperatura é importante", afirma Enox Maia. Mesmo reconhecendo todos os benefícios da duplicação, o empresário, que é formado em engenharia de pesca, destaca a necessidade de um trabalho de fiscalização constante das obras, para evitar que, nos períodos de chuva, a terra revolvida não acabe indo parar nos rios e estuários.



FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO - 09/09/2009