2009-09-07
Caminhos da BR-101 // Duplicando Esperanças

Caminhos da BR-101 // Duplicando Esperanças
Se pudéssemos destacar a imagem símbolo de uma obra em estradas, a plaquinha pare/siga seria forte candidata. Várias delas podem ser encontradas entre as cidades de Natal, capital do Rio Grande do Norte, e Palmares, na Mata Sul de Pernambuco.

Manoel Simplício acompanha as obras na rodovia. Um dos trechos já liberados passa por Alhandra, na Paraíba. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press |
É nesse trecho de 335,7 quilômetros da rodovia BR-101 que está em curso a obra de duplicação do chamado Corredor Nordeste. Os trabalhos, previstos para acabar no próximo ano, também incluem a recuperação de toda pista existente. Estão orçados em pouco mais de R$ 2 bilhões e já trazem mudanças na economia da região. Com a conclusão da obra, os estados terão duas vezes mais autonomia para movimentar suas riquezas, transportar sua gente, atrair visitantes e novos investimentos. A equipe do Diario de Pernambuco formada pela repórter Tatiana Nascimento, a fotógrafa Alcione Ferreira e o motorista Gilson Bezerra percorreu todo o trecho que está sendo duplicado. E deste domingo até o próximo sábado mostra que mudanças são essas e conta histórias de pessoas afetadas pelas obras.
Impossível não notar a figura de Manoel Simplício dos Santos na beira da rodovia. Montado em sua mula, imóvel, olhar fixo, ele acompanha o movimento dos carros nas duas pistas. Vaqueiro desde menino, Manoel tem 46 anos. Mora em Santa Rita, município da grande João Pessoa, que é considerado o maior produtor de abacaxi da Paraíba. Percorre todos os dias cerca de 9 quilômetros até a fazenda onde trabalha. É testemunha de como a mistura de cimento, pedra, areia, água e ferro vem transformando a paisagem da região. Nem pensa em mudar o meio de transporte. Mas está satisfeito com o que encontra pelo caminho.
"Acho que a duplicação vai ser boa para todo mundo. Hoje tem mais espaço para andar na margem. Também diminuiu o número de acidentes", diz o vaqueiro, antes de se despedir, dar meia volta na mula e seguir pela estrada. A opinião de Manoel é compartilhada por muitos. Contestada por outros. Mas o fato é que - depois de anos de promessas e espera -o projeto de duplicação do Corredor Nordeste da BR-101 saiu do papel e ganhou forma. As obras começaram no fim de 2005, em três lotes comandados pelo Exército. Desde 2006 os trabalhos também passaram para outros cinco lotes, a cargo da iniciativa privada.

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Dos oito trechos, dois ficam em terras potiguares, três passam pela Paraíba e outros três por Pernambuco. Em áreas do Rio Grande do Norte e da Paraíba, os motoristas já trafegam de um lado e do outro na rodovia duplicada. Como em São José de Mipibu (RN) e na Santa Rita do vaqueiro Manoel Simplício. As obras da Paraíba estão mais adiantadas. O primeiro trecho, de 11 quilômetros, entre os municípios de Conde e Alhandra, foi liberado em dezembro do ano passado. Hoje a metade dos quase 130 quilômetros de duplicação no estado já está 100%.
"Tivemos a sorte de agilizar as desapropriações e relocações. Poderíamos até estar mais adiantados, mas o inverno foi muito pesado. Ainda assim, devemos liberar todo o lote 3 e o 4 até o fim do ano", diz Expedito Leite da Silva, superintendente do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) na Paraíba. Boa notícia para moradores e empresas também. O gerente de vendas para o Nordeste da telefônica Nextel, Maurício Di Roberto, lembra que a questão rodoviária é um calcanhar de Aquiles no país.
"A BR-101 é um corredor. A duplicação desse trecho vai aumentar a possibilidade de desenvolvimento da região", destaca Di Roberto. Ele cita o exemplo da ligação entre os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os 402 quilômetros da Via Dutra são totalmente duplicados desde 1967. "O desenvolvimento daquela região veio através da estrada", diz o executivo, que é paulista e atualmente mora em Salvador. Ex-motorista das empresas Itapemirim e São Geraldo, Francisco das Chagas de Souza, 57, já rodou muito até o Rio e São Paulo.
"Nos anos 60 e 70, eram três dias para chegar até São Paulo. Hoje se faz a viagem em dois dias porque as estradas estão melhores", lembra Francisco, que atualmente trabalha com lotação na capital paraibana.Costuma fazer corridas até a cidade pernambucana de Goiana, na divisa com a Paraíba, ou até o Recife. Torce para que a duplicação termine logo. Sentado em uma calçada na entrada de Goiana, à espera dos passageiros, ele diz que gastará apenas 40 minutos para fazer o percurso até João Pessoa quando tudo estiver duplicado. Com pista simples é uma hora. "A BR vai ficar uma boa", comemora.
Corrida contra o tempo
O superintendente do Dnit no Rio Grande no Norte, Fernando Rocha, acredita que os trabalhos do lote 1, entre Natal e a entrada para o município de Arês, devem ser concluídos em dezembro. O lote 2 pode ser finalizado em maio, apesar de a restauração da pista existente só ter ficado pronta em três dos 35,2 quilômetros. "Pense num homem que tem fé. Em dezembro, quando você passar por aqui, vai ver", garante.
Já o gerente geral de contrato da obra do lote 2, Gilberto Ruggiero, não demonstra ter tanta fé assim. Ele lembra que ainda restam três pontes para serem executadas e São Pedro não ajudou muito nos últimos meses. Segundo Ruggiero, há pontos críticos de desapropriação nas cidades de Goianinha (porta de entrada para a badalada Praia da Pipa) e Canguaretama. Há também o problema dos "solos moles".
Os tais solos moles exigem uma técnica de terraplenagem complicada e demorada, até ser feita a pavimentação. Esses solos também dão trabalho no lote 6, que vai da divisa Paraíba/Pernambuco até a cidade de Igarassu. "Vamos usar no solo mole asfalto e não concreto, como o restante da rodovia", explica o tenente-coronel Marcelo Pagotti, comandante do 1º Grupamento de Engenharia e Construção do Exército.
Outra dor de cabeça para o Exército é a recuperação da pista antiga, que foi construída em concreto. O projeto teve que ser mudado. Inicialmente, as placas seriam retiradas. Não deu certo. Agora, as placas serão fragmentadas com um equipamento vindo dos Estados Unidos. Depois é que será passado asfalto por cima, explica o superintendente em exercício do Dnit em Pernambuco, Divaldo de Arruda Câmara.
Esse problema não existe nos outros dois lotes de Pernambuco, entre as cidades do Cabo e Palmares. "Apesar de toda a BR-101 no estado ser originalmente de concreto, há muitos anos o trecho foi recoberto com asfalto. A recuperação fica mais rápida", conta Câmara. Verdade. Os trabalhos nos dois lotes estão bem mais adiantados e a previsão de entrega no primeiro semestre de 2010 deve ser cumprida.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO - 06/09/2009